sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

" uma casinha com varanda" - capítulo 3

Voces já pensaram que tudo nessa nossa vida é uma questão de tempo e espaço?
O mundo inteiro é um espaço que existe através de tempos, ou, melhor dizendo, através do tempo. E esses dois conceitos, embora aparentemente simples, são abrangentes e, por isso mesmo, com conotações bem específicas.... Há um tempo certo para cada acontecimento, e cada acontecimento ocorre em um determinado espaço; nossas mais simples ações são influenciadas pelo tempo em que vivemos, quase sempre carregam uma bagagem histórica de acontecimentos passados, e que interferem diretamente no espaço presente em que estamos, sendo posteriormente, essas próprias ações, também uma referência para o futuro.
Comento isso porque arquitetura é uma consequência desses dois conceitos: é uma interferência direta no espaço, que obviamente está em um determinado tempo. Enquanto eu era menina e sonhava em conhecer a casa com varanda em São Simão, não podia imaginar que um dia, no futuro, eu própria teria acesso á ela, de maneira bem direta e incisiva. E isso aconteceu da forma mais simples possível, e talvez a menos provável - eu, já sendo arquiteta formada há alguns anos, a recebi como um projeto de reforma, com recomendações para ampliação da área, restauro e manutenção da área existente. A casa já era propriedade da minha tia, que, depois de muitos anos até de tê-la adquirido, queria adaptá-la, para mudar-se para lá.
Eu já havia ficado super feliz quando da época da compra, mas não pude ter acesso a casa imediatamente, pois ela encontrava-se alugada e esse fato arrastou-se por anos... Que eu suportei relativamente bem. Mas, enfim, ela veio para mim e eu tinha nas mãos (literalmente) não só a planta da casa (que tanto havia aguçado minha imaginação); como também a incumbência de interferir diretamente nela. Isso, por si só, já era muito mais que um sonho! E para que tudo não se transformasse num pesadelo, precisei parar, respirar fundo, conter minha ansiedade, e começar a trabalhar com muito profissionalismo.
Por isso comecei esse texto falando sobre o tempo e o espaço, e aqui podemos salientar algumas das nuances desses conceitos nas nossas vidas, tomando como tema esse fato que aconteceu comigo.
Em primeiro, falarei da minha própria questão pessoal, o meu envolvimento emocional no caso desse projeto (que o leitor deve manter em mente que, de agora em diante, se tratava de um trabalho); o tempo que durou para que os fatos acontecessem, gerou uma óbvia ansiedade, que necessitava ser contida, porém, não muito, para que eu pudesse deixar fluir minha imaginação e minha criatividade, guardadas nos meus sonhos, desde a minha infância... Coisa difícil e complicada de explicar, porém muito prazerosa de sentir!
Havia ainda o tempo da minha capacitação profissional, em que eu me encontrava, na época do projeto: já não era mais recém-formada, já armazenava certa experiência, tanto de projeto, quanto de obra, fato que me permitiu conduzir as etapas da tarefa com segurança e autoridade de profissional.
Em segundo plano, esse mesmo tempo gerou no espaço da casa um desgaste físico e uma desatualização das necessidades demandadas por uma época diferente e bastante posterior a sua construção; essa realidade era o centro do conceito do projeto de reforma e restauro. Aqui, entram o cuidado com projeto, na forma de respeito pela sua época de concepção, mas também a necessidade de conecta-lo com a realidade espacial da época atual (que já não é mais a mesma época em que estamos hoje....). Graças ao meu apego á casa, a minha boa formação de arquitetura, e ao meu momento profissional, pude ver com clareza essas condicionantes e me preparar para a elaboração do projeto, que ao meu ver, foi bem sucedido.
E ainda cabe aqui falar de um terceiro plano da questão: foi muito emocionamte, enquanto eu fazia o levantamento da área da casa, medindo mesmo cada cômodo, com toda a paciência e atenção necessárias a essa tarefa, lembrar que a planta havia sido feita por um antepassado meu (irmão da minha avó Elvira, mãe da minha mãe); pensei que ele provavelmente fez desenhos, simplesmente empregando seu conhecimento e seguindo sua intuição (inseridos no contexto da época, é claro!), na hora de elaborar cada detalhe, não apenas da planta, mas dos acabamentos de piso, de forro, das portas e janelas, dos rodapés e das paredes, que são muito bonitos e perfeitamente harmônios. Eu fazia um mergulho no passado, na tentativa de captar o espírito da época, as intenções do meu tio avô com esse trabalho....eu caminhava pela casa vazia, entre os cômodos, imaginando como os fatos se desenrolaram, como foram as conversas entre cliente e construtor, como foi o recebimento da casa pelo proprietário e sua família, se ficaram satisfeitos, se com o passar dos anos vivendo ali, foram bem acolhidos; e em relação ao tio Juca, o mestre de obras, se para ele essa obra teve alguma relevância, porque a casa é diferenciada até hoje, sem outra similar a ela na cidade. Infelizmente, eu nunca pude conversar com ele sobre essas coisas... Éramos totalmente de tempos diferentes, ele sendo muito velho, quando eu ainda era muito jovem. Mas é claro que carrego até hoje um orgulho por sermos parentes, por ele ter cumprido seu trabalho com muito êxito; isso apenas me incumbiu de mais responsabilidade na hora de projetar, pois eu tinha que estar á altura do trabalho dele. Foi uma experiência única, um privilégio e uma benção eu ter sido parte dessa história, e ainda mais essa história ser parte fundamental do meu sonho de criança!
No próximo capítulo, os detalhes do projeto - antes e depois da reforma - aguardem!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

"uma casinha com varanda" - capítulo 2

São Simão é uma pequena cidade entre morros, num vale - o chamado vale da saúde - a pouco mais de quarenta quilometros de ribeirão preto, nordeste paulista.
Ao fundo do vale há um riacho, que serpenteia a cidade e é coberto por várias pequenas pontes; esse riacho, ocasionalmente, aparece nos quintais de algumas casas...e podem imaginar a aventura que é ter um "rio" no quintal de casa!
Se voce estiver numa parte alta da cidade, que seria o primeiro patamar de um dos morros, consegue visualizar toda a extensão da largura da cidade; e se subir o morro do cruzeiro, onde há um mirante, com uma grande estrutura de concreto em forma de cruz - daí o nome do lugar - consegue visualizar todo o vale e a cidade esparramada nele. É um lugar muito bonito, sossegado e bucólico.
Desde muito pequena, quando passava as férias e feriados lá, era costume saírmos para visitar os parentes e amigos - um costume que minha mãe seguia irremediavelmente - íamos seguindo á pé, de casa em casa, e eu era a sua companhia mais assídua pois meus irmãos davam um jeitinho de escapar. Mas na verdade eu curtia esse ritual e ia apreciando a modesta movimentação da cidade, sentia a presença marcante dos morros, o ar mais direcionado através do caminho do vale, as posições do sol através do avançar das horas da manhã e, o que eu achava o mais interessante de tudo, a chegada a cada casa que visitávamos...numa cidade assim, a relação da casa com a rua é muito "íntima", uns passos e voce já está dentro da casa.
Isso porque, na sua maioria, eram casas para apenas as pessoas, e não para os seus carros. As construções, que eram de antigamente, algumas vezes muito levemente reformadas - naquela época, em pouquíssimos casos - tinham essa característica de serem próximas as ruas; essa situação chamava muito minha atenção, pois morávamos em cidades maiores, com frentes recuadas e garagens, muitas vezes muros e grades, que fechavam a visão da rua, dificultando o acesso.
Essa informalidade e despretensão do acesso ao interior da casa era para mim, no mínimo, charmoso e especial; tinha um ar de acolhimento imediato que muito me agradava... Era comum estarmos no meio da visita e algum conhecido ir avisando em voz alta sua chegada, ao mesmo tempo em que caminhava lentamente para dentro, aguardando a resposta afirmativa á sua entrada - geralmente era alguém que conhecíamos - e, após ter a confirmação do consentimento de seu acesso, já ia se encaminhando para a cozinha, onde quase sempre éramos recepcionadas, puxando uma cadeira, compartilhando da conversa, trazendo novidades.
Nessas casas, as portas ficavam abertas e não havia halls de entrada, e a recepção se fazia naturalmente, as vezes até pela porta da cozinha...e isso era providencial, pois sempre havia um café quentinho e era para lá mesmo que todo mundo ia...
A casa de estilo - da qual já falei que fazia parte do meu sonho de criança - com varanda e jardim em todo o seu entorno, bem situada num lote de esquina, está no que era o caminho da nossa maratona de visitas, e todas as vezes, eu passava por ela tentando captar o máximo de detalhes possíveis da sua fachada, para através dessa observação, tentar compor seu interior.... O início do meu sonho era extremamente modesto - eu apenas queria conhecer a casa em seu interior. Minha mãe percebia isso e sempre me contava que ela própria visitava, quando criança, a familia da casa, que eram amigos da minha avó. Ela descrevia a cena em que se sentavam na sala, ela de um lado, minha tia de outro, minha avó no meio, num sofazinho disposto na primeira sala, e que era servido licor de genipapo - coisa que ela e minha tia não gostavam, mas minha avó as advertia atecipadamente da necessidade de serem educadas e aceitarem a oferta....
Todas essas imagens, a casa preferida, as casas que visitávamos, o ar do vale e a vista dos morros, ficaram na minha memória como uma coisa especial que era um privilégio meu, uma vivencia que aguçou meus sentidos para a percepção dos espaços e as relações entre eles - interior das casas com o arruamento da cidade - e que eu inevitavelmente comparava com outras cidades onde morei e onde visitei; e são simão sempre foi como estar em casa, a sensação de finalmente chegar a um lugar que é intimamente meu.
Todas as pessoas tem essas mesmas sensações e captam as essências dos espaços que ocupam, tanto os interiores, quanto os exteriores....mas condições particulares de cada indivíduo direciona-os para suas necessidades e habilidades mais pertinentes ás suas realidades, e é comum isso ser desapercebido....se gostarem da ideia, podem ficar mais alertas e captarem mais o próprio espaço onde vivem. boa sorte na tentativa!!!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

"uma casinha com varanda...." capítulo 1

Todo mundo tem um sonho de criança; se voce pensar bem, for o máximo possível honesto consigo mesmo e não ter reservas em voltar a infância e se lembrar, achará seu sonho...
O meu, penso, é o mais óbvio possível - ter uma casinha com varanda. se não me engano, há até uma música com esse verso...ah! google! lá vai, eis o verso:
Eu queria ter na vida simplesmente
Um lugar de mato verde
Pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal e uma janela
Para ver o sol nascer

Ao que parece, de autoria de Gilson Campos.
Eu sou nascida numa cidadezinha pequena, no nordeste paulista - São Simão. Minha familia, tanto por parte do meu pai, quanto por parte de minha mãe, é de imgrantes italianos, que chegaram a esse lugar para trabalhar nas lavouras de café. Aptaram-se á cidade e muitos da geração dos meus avós, dedicaram-se a serviços na área da construção civil. Meu avô paterno era marceneiro e carpinteiro, capacitado a fazer tanto estruturas de telhados e caixilharias de madeira, quanto móveis com finos detalhes de marchetaria. Meus tios avôs maternos, quase todos, eram mestres de obras, habilitados a fazer até plantas para residências. Um desses tios, aliás (o tio Carlito), percebeu meus rabiscos em papel de embrulhar pão de antigamente, e num ato de extrema generosidade por uma menina muito tímida, ensinou-me as primeiras linhas do que seria um desenho arquitetônico....
São Simão é uma cidade marcada por belos traços arquitetônicos característicos das primeiras décadas do século 20. Como é uma cidade pequena com um crescimento mínimo, ainda estão lá a maioria dessas casas; uma delas, meus irmãos e eu, herdamos. E acreditem, essa é justamente a casa com varanda dos meus sonhos....
Ela foi construída por meu tio avô Juca (talvez apelido para João - não tenho certeza) para um cliente, que anos depois, quando quis se desfazer dela, ofereceu-a a minha tia, e assim ela veio para nós. E é mesmo um espaço muito especial, com muitas histórias e onde eu criei em minha mente, muitas imagens, que alimentaram minha imaginação durante minha infância, adolescência, juventude e maturidade. Eu, quando criança, passava por essa casa e tentava desesperadamente imaginar como ela seria por dentro.... Essa curiosidade impulsionou meu sonho e emoldurou minha vocação.
Como essa é uma história com muitos detalhes, eis aqui o primeiro capítulo. Aguardem os próximos....