São Simão é uma pequena cidade entre morros, num vale - o chamado vale da saúde - a pouco mais de quarenta quilometros de ribeirão preto, nordeste paulista.
Ao fundo do vale há um riacho, que serpenteia a cidade e é coberto por várias pequenas pontes; esse riacho, ocasionalmente, aparece nos quintais de algumas casas...e podem imaginar a aventura que é ter um "rio" no quintal de casa!
Se voce estiver numa parte alta da cidade, que seria o primeiro patamar de um dos morros, consegue visualizar toda a extensão da largura da cidade; e se subir o morro do cruzeiro, onde há um mirante, com uma grande estrutura de concreto em forma de cruz - daí o nome do lugar - consegue visualizar todo o vale e a cidade esparramada nele. É um lugar muito bonito, sossegado e bucólico.
Desde muito pequena, quando passava as férias e feriados lá, era costume saírmos para visitar os parentes e amigos - um costume que minha mãe seguia irremediavelmente - íamos seguindo á pé, de casa em casa, e eu era a sua companhia mais assídua pois meus irmãos davam um jeitinho de escapar. Mas na verdade eu curtia esse ritual e ia apreciando a modesta movimentação da cidade, sentia a presença marcante dos morros, o ar mais direcionado através do caminho do vale, as posições do sol através do avançar das horas da manhã e, o que eu achava o mais interessante de tudo, a chegada a cada casa que visitávamos...numa cidade assim, a relação da casa com a rua é muito "íntima", uns passos e voce já está dentro da casa.
Isso porque, na sua maioria, eram casas para apenas as pessoas, e não para os seus carros. As construções, que eram de antigamente, algumas vezes muito levemente reformadas - naquela época, em pouquíssimos casos - tinham essa característica de serem próximas as ruas; essa situação chamava muito minha atenção, pois morávamos em cidades maiores, com frentes recuadas e garagens, muitas vezes muros e grades, que fechavam a visão da rua, dificultando o acesso.
Essa informalidade e despretensão do acesso ao interior da casa era para mim, no mínimo, charmoso e especial; tinha um ar de acolhimento imediato que muito me agradava... Era comum estarmos no meio da visita e algum conhecido ir avisando em voz alta sua chegada, ao mesmo tempo em que caminhava lentamente para dentro, aguardando a resposta afirmativa á sua entrada - geralmente era alguém que conhecíamos - e, após ter a confirmação do consentimento de seu acesso, já ia se encaminhando para a cozinha, onde quase sempre éramos recepcionadas, puxando uma cadeira, compartilhando da conversa, trazendo novidades.
Nessas casas, as portas ficavam abertas e não havia halls de entrada, e a recepção se fazia naturalmente, as vezes até pela porta da cozinha...e isso era providencial, pois sempre havia um café quentinho e era para lá mesmo que todo mundo ia...
A casa de estilo - da qual já falei que fazia parte do meu sonho de criança - com varanda e jardim em todo o seu entorno, bem situada num lote de esquina, está no que era o caminho da nossa maratona de visitas, e todas as vezes, eu passava por ela tentando captar o máximo de detalhes possíveis da sua fachada, para através dessa observação, tentar compor seu interior.... O início do meu sonho era extremamente modesto - eu apenas queria conhecer a casa em seu interior. Minha mãe percebia isso e sempre me contava que ela própria visitava, quando criança, a familia da casa, que eram amigos da minha avó. Ela descrevia a cena em que se sentavam na sala, ela de um lado, minha tia de outro, minha avó no meio, num sofazinho disposto na primeira sala, e que era servido licor de genipapo - coisa que ela e minha tia não gostavam, mas minha avó as advertia atecipadamente da necessidade de serem educadas e aceitarem a oferta....
Todas essas imagens, a casa preferida, as casas que visitávamos, o ar do vale e a vista dos morros, ficaram na minha memória como uma coisa especial que era um privilégio meu, uma vivencia que aguçou meus sentidos para a percepção dos espaços e as relações entre eles - interior das casas com o arruamento da cidade - e que eu inevitavelmente comparava com outras cidades onde morei e onde visitei; e são simão sempre foi como estar em casa, a sensação de finalmente chegar a um lugar que é intimamente meu.
Todas as pessoas tem essas mesmas sensações e captam as essências dos espaços que ocupam, tanto os interiores, quanto os exteriores....mas condições particulares de cada indivíduo direciona-os para suas necessidades e habilidades mais pertinentes ás suas realidades, e é comum isso ser desapercebido....se gostarem da ideia, podem ficar mais alertas e captarem mais o próprio espaço onde vivem. boa sorte na tentativa!!!

Nenhum comentário:
Postar um comentário